Brechós: estilo, consciência e mulheres à frente dos negócios
- Rafaela Maciel
- há 2 dias
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Atualizado: há 1 dia

O crescimento dos brechós no Brasil deixou de ser apenas uma tendência alternativa e passou a refletir uma mudança estrutural no comportamento de consumo. Dados do Sebrae indicam que o número de brechós no país cresceu cerca de 30% nos últimos cinco anos, impulsionado por uma combinação de fatores que envolvem economia, consciência ambiental e transformação cultural.
No interior paulista, esse movimento ganha contornos próprios. Em Piracaia, o Larauê Brechó é um exemplo de como a moda de segunda mão vem sendo ressignificada — não mais associada à necessidade, mas à escolha consciente, ao estilo pessoal e à valorização de histórias.
Consumo por escolha, não por falta
Para a proprietária do Larauê, Lara Krawczenko, o crescimento dos brechós não pode ser explicado por um único motivo. “Vejo como uma combinação entre economia, consciência ambiental e mudança cultural. A economia conta, mas muito no lugar da oportunidade de encontrar peças muitas vezes exclusivas por valores menores. Ao mesmo tempo, as pessoas estão mais conscientes do impacto ambiental do mercado da moda”, afirma.
Lara destaca que o universo dos brechós é diverso e vai muito além da ideia de bazar. “O brechó se caracteriza pela curadoria e pela proposta de economia circular. Roupa de segunda mão não significa menos valor — muitas vezes é o contrário. Encontramos verdadeiros tesouros.”
Essa mudança fica evidente no perfil de quem frequenta o espaço. “Recebo muitos clientes que poderiam comprar em lojas tradicionais, mas escolhem o brechó pelo prazer de garimpar algo fora das tendências ditadas pela moda, pela exclusividade e pela qualidade das peças”, conta.
Quebra de preconceitos e novas percepções
Durante muito tempo, o consumo de roupas usadas esteve cercado de preconceitos. No interior, essa visão também vem mudando. “As pessoas entram curiosas, experimentam e se surpreendem com a organização da loja e com a limpeza das peças. Entendem que brechó não é sobre roupas velhas, mas sobre peças com potencial de viver novas histórias”, explica Lara.
Segundo a empreendedora, cidades como Piracaia, Atibaia e Bragança Paulista acompanham o movimento de consumo consciente, ainda que em um ritmo próprio. “Vejo um consumo mais atento e menos impulsivo, o que combina muito com a proposta dos brechós.”
Muito além da venda: um espaço de convivência

Mais do que um ponto comercial, o Larauê se consolidou como um espaço de encontro. “As pessoas não vêm só comprar. Vêm conversar, trocar experiências, tomar um café coado na hora. O brechó vira um lugar de acolhimento”, diz.
O espaço também funciona como um ambiente colaborativo, reunindo oito empreendedoras locais e um mix de produtos artesanais que inclui moda autoral, bolsas, biojoias, cosméticos naturais, velas, cadernos artísticos e objetos de decoração. Além disso, o Larauê promove oficinas e eventos culturais abertos ao público ao menos uma vez por mês, fortalecendo a economia criativa da cidade.
Sustentabilidade na prática
A moda é apontada como uma das indústrias que mais impactam o meio ambiente. Nesse contexto, os brechós oferecem uma alternativa concreta. “Na prática, prolongamos a vida útil das roupas, reduzimos o descarte e diminuímos a necessidade de produzir novas peças. Cada item reaproveitado já é uma forma real de reduzir impacto ambiental”, afirma Lara.
Esse contato direto com a moda circular acaba influenciando outros hábitos. “Muitas clientes passam a repensar compras por impulso, valorizam mais qualidade do que quantidade e questionam seus hábitos de consumo e descarte.”
Empreendedorismo feminino e redes de apoio
Pesquisas mostram que a maioria dos brechós no Brasil é liderada por mulheres. Para a proprietária do Larauê, isso não é coincidência. “É um mercado onde sensibilidade, escuta e cuidado fazem diferença. Empreender nesse segmento é desafiador, mas muito potente.”
No interior, os obstáculos incluem a educação do público e a necessidade de constância. “O boca a boca é fundamental, e construir confiança leva tempo. Exige persistência e criatividade.” Ainda assim, o impacto positivo se multiplica. Hoje, o Larauê conta com mais de 30 fornecedoras de peças consignadas, formando uma rede de apoio entre mulheres.
Um caminho sem volta

Para a empreendedora, os brechós não são uma moda passageira. “Eles vieram para ficar. São uma resposta a um modelo de consumo que já mostrou seus limites. As novas gerações exigem identidade com as marcas e com os meios de consumo.”
Ao olhar para o futuro, ela aposta em escolhas mais locais e colaborativas. “Vejo um consumo mais consciente, com valorização de pequenos negócios, histórias reais e escolhas que façam sentido.”
E deixa um convite a quem ainda resiste: “Vá sem preconceito, experimente. Moda de segunda mão não é sobre o passado da roupa, mas sobre o futuro que a gente escolhe construir.”
Em uma frase, ela resume a essência do projeto: “O Larauê é um convite para consumir com mais consciência, afeto e liberdade — escolher o que já existe e transformar isso em cuidado e futuro.”




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