Aos 50 anos, Bloco do Guaraná celebra tradição, função social e protagonismo feminino em Bragança Paulista
- Rafaela Maciel
- há 3 horas
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O mais tradicional bloco carnavalesco de Bragança Paulista completa 50 anos em 2026 e segue abrindo oficialmente o Carnaval da cidade. Fundado em 1975, no bairro do Taboão, o Bloco do Guaraná desfila neste domingo, dia 8, levando às ruas não apenas a alegria da folia, mas também uma história marcada por solidariedade, pertencimento e transmissão entre gerações.

A trajetória do bloco começou de forma despretensiosa, quando um grupo de amigos se reunia no antigo Bar do Pitoco, na Rua José Domingues. O primeiro desfile contou com cerca de 15 homens vestidos de mulher — uma brincadeira que, com o tempo, ganhou corpo, identidade própria e um forte compromisso social. Ao longo dos anos, o Guaraná participou de eventos como a Gincana da Primavera e promoveu ações solidárias emblemáticas, como o tradicional Almoço de Natal, que por décadas distribuiu refeições e brinquedos a famílias em situação de vulnerabilidade.
Hoje, ao completar meio século de existência, o bloco é parte do calendário oficial de eventos de Bragança Paulista, mantendo viva a essência do Carnaval de rua: criatividade, diversidade, sátira, música e, sobretudo, encontro.
Uma mulher na organização de um bloco histórico

Em meio a uma história construída majoritariamente por homens, um nome se destaca: Cristiane Harada, mais conhecida como Krika, única mulher integrante da organização do Bloco do Guaraná.
A relação dela com o bloco vem desde a infância e de dentro da família, visto que seu pai era um dos integrantes do Bloco do Guaraná. “Eu me recordo que quando era criança ficava esperando o bloco passar para o meu pai e os amigos dele me puxarem para dançar no meio da rua”, relembra.
Com o passar dos anos, a vivência virou participação ativa e, há cerca de 15 anos, um convite mudou sua relação com o bloco. “Me chamaram para participar do trio, mas eu achava que precisava ajudar de alguma forma”, conta. Foi assim que surgiu a ideia de vender ‘tiarinhas’ para arrecadar recursos e, ao mesmo tempo, criar um símbolo de pertencimento e respeito para as mulheres. Depois vieram os abadás e, com eles, uma atuação cada vez mais presente na organização. “Hoje eu sou a única mulher, e isso traz um outro olhar para o bloco, que é frequentado por famílias, esposa, mãe, criança, todo mundo junto, com respeito.”
Tradição que se renova
Para Krika, a longevidade do Bloco do Guaraná está diretamente ligada ao seu compromisso social. “Começou com um grupo de amigos e o trabalho do fundo social. Hoje são famílias que se reúnem com esse mesmo intuito. Todos os anos arrecadamos alimentos e entregamos toneladas de doações”, explica.
Ela cita com emoção a relação das crianças com o bloco. “Elas me chamam de ‘tia do trio elétrico’. Querem se vestir igual, fazer a maquiagem igual. Isso mostra a responsabilidade que a gente tem. Estamos sendo referência.”
Carnaval, respeito e futuro
Ser mulher em um espaço tradicionalmente masculino, segundo Krika, representa sim um avanço. “Eles são muito da razão, e a gente acaba trazendo um pouco mais da emoção, do cuidado com os detalhes, com os filhos participando, com a escolha do abadá, das cores, do design”, conta. “São coisas pequenas, mas que ajudam o bloco a se manter vivo e conectado com as famílias.”
Para ela, o Bloco do Guaraná é mais do que Carnaval. “Hoje ele representa família. Um grupo de amigos que vem de geração para geração, com o intuito de ajudar o próximo e festejar com respeito.” A mensagem para quem vai às ruas nesta edição histórica é simples e potente: celebrar juntos, com alegria, amor, respeito e solidariedade.

Neste domingo, ao abrir o Carnaval de Bragança Paulista, o Bloco do Guaraná reafirma seu lugar na história da cidade — como símbolo de tradição, inclusão e da força dos laços que atravessam o tempo.




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