Quando tudo vence junto: como mulheres podem se organizar financeiramente no início do ano
- Rafaela Maciel
- 12 de jan.
- 3 min de leitura
IPTU, material escolar, fatura do cartão e um janeiro que nem sempre acompanha o ritmo das contas colocam muitas mulheres no limite. A assessora financeira Lígia Marques explica por onde começar — sem fórmulas mágicas

Janeiro costuma chegar com a promessa de recomeços, mas para muitas mulheres, ele vem acompanhado de uma lista pesada de despesas: impostos, material escolar, fatura do cartão, gastos das festas de fim de ano e, em muitos casos, um faturamento menor. “Para quem trabalha em determinados setores, janeiro é um mês fraco para vendas. Tudo isso junto pode resultar em dificuldades financeiras e até endividamento”, explica Lígia Marques, assessora financeira e criadora do perfil @financas_sustentaveis.
Segundo ela, duas queixas são recorrentes no início do ano: pagar a fatura do cartão e conseguir viajar sem se endividar. O problema, muitas vezes, não está apenas no valor das contas, mas na falta de planejamento ao longo do ano. “O maior erro é não poupar para criar uma reserva. É justamente nesse período que muitas mulheres acabam se endividando.”
Por onde começar quando tudo aperta
Diante de tantas contas ao mesmo tempo, Lígia orienta a priorizar o que é indispensável e o que cobra juros. “Comece pelo que pode te prejudicar mais se atrasar. O IPVA, por exemplo, até pode ser parcelado, mas se você perde a data da primeira parcela, acaba tendo que pagar tudo de uma vez.”
O passo seguinte é simples — mas essencial: listar as despesas essenciais, aquelas que não podem deixar de ser pagas. “Tendo isso claro, reserve o dinheiro para essas despesas. O que sobrar pode ser destinado ao lazer e a outros gastos variáveis.”
Parcelar pode ser inteligente — se for planejado
Parcelamento não é vilão, desde que usado com critério. “É inteligente quando não há juros e quando o que você está pagando vai durar por meses, como uma viagem, um eletrodoméstico ou o conserto do carro”, afirma Lígia.
Já despesas do dia a dia devem ser evitadas no crédito parcelado. “Supermercado, gasolina, contas da casa e lazer, como restaurantes e baladas, idealmente devem ser pagos à vista. Parcelar esses gastos compromete o orçamento futuro.”
O alerta principal é avaliar se a parcela caberá no orçamento dos próximos meses. “O que mais acontece é a soma das parcelas estourar o orçamento. Parcelamento precisa ser planejado. Renegociar é uma opção quando não dá para pagar, mas é preciso cuidado para não cair em juros ainda maiores.”
Organização sem planilhas (e sem culpa)
Para quem tem dificuldade com planilhas, a boa notícia é que existem alternativas. “Hoje há vários aplicativos que categorizam os gastos automaticamente. Você lança as despesas e passa a enxergar para onde o dinheiro está indo”, explica.
Com o orçamento essencial em mãos, a orientação é distribuir o restante de forma consciente. Uma sugestão prática é a regra 50-30-20:
50% para gastos essenciais
30% para gastos variáveis
20% para reserva e aposentadoria
“O importante é não ficar no escuro, no ‘deixa a vida me levar’. Só o que é visto pode ser curado”, resume.
Quando a sobrecarga pesa no bolso
A relação entre cansaço emocional e decisões financeiras ruins é direta. “Quando estamos sobrecarregadas e exaustas, não conseguimos analisar com clareza. Muitas mulheres acabam gastando de forma compulsiva para preencher vazios emocionais ou recorrem a empréstimos com juros altíssimos”, alerta Lígia.
Ela chama atenção, inclusive, para práticas abusivas. “Já vi casos de juros de 150% ao ano. Existe má-fé de instituições que se aproveitam de mulheres em situação de vulnerabilidade emocional.”
Dizer “não” também entra nesse processo. “Não somos ensinadas a desagradar. Com dinheiro, é igual. Mas limites são treino — e são amigos da saúde financeira. Como ensinamos às crianças: limite é amor.”
Finanças sustentáveis e a “Reserva da Paz”
Para Lígia, finanças sustentáveis são aquelas em que o dinheiro não limita a vida, mas se torna aliado. “Ele é uma ferramenta para acessar sonhos e objetivos. Não deve ser uma relação de medo, excesso ou escassez.”
Um hábito pequeno pode fazer grande diferença: a reserva financeira. “Comece com R$ 50 por mês, mas comece. Vá aumentando aos poucos. Eu gosto de chamar de Reserva da Paz, porque ela não serve só para emergências, mas para dormir tranquila e atravessar meses difíceis — como janeiro.”
Para quem já começou o ano no aperto
A mensagem final da especialista é de acolhimento — e realismo.
“Primeiro, respire. Essa situação é passageira e não te define. Leve como aprendizado e se prepare melhor ao longo do ano. Haverá muitos outros janeiros pela frente.”




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