A Carga Emocional do Fim de Ano para as Mulheres
- Rafaela Maciel
- 23 de dez. de 2025
- 7 min de leitura

Entre a expectativa de felicidade, a sobrecarga de tarefas e a autocobrança, o fim do ano se torna um período emocionalmente intenso para muitas mulheres. A psicóloga Andréia Pinheiro explica por quê — e como atravessar esse momento com mais gentileza.
EP: Como você observa o comportamento emocional das mulheres nesta época do ano? É
realmente um período mais sensível?
Andreia: É comum observar uma intensificação emocional. Mais do que um período de sensibilidade
inata, o fim de ano funciona como um catalisador de pressões acumuladas. Ele representa o
fechamento de um ciclo, convidando a balanços pessoais e profissionais, ao mesmo tempo em
que impõe uma agenda social e doméstica exaustiva. Essa sobreposição de papéis e
expectativas pode, sim, deixar as mulheres emocionalmente mais vulneráveis e reativas.
EP: Quais são os principais sentimentos que costumam emergir para as mulheres no fim de
ano? Alegria, exaustão, ansiedade… o que aparece com mais frequência no consultório?
Andreia: O que observamos clinicamente é um fenômeno de ambivalência emocional, onde
sentimentos contraditórios coexistem. Embora a alegria seja esperada, a ansiedade
antecipatória e o esgotamento emocional são frequentemente mais proeminentes. A
psicologia evolucionista sugere que a ansiedade é uma resposta adaptativa ao planejamento de
eventos complexos e de alto risco social. No consultório, isso se traduz na preocupação com o
julgamento alheio e na pressão para performar a "felicidade", um estado que pode levar à
exaustão por si só.
EP: Por que as mulheres sentem tanta pressão para organizar e “dar conta” das festas? De
onde vem esse papel social?
Andreia: Essa pressão é um legado de uma construção social histórica que atribui à mulher o papel de "cuidadora do lar e das relações". Desde cedo, meninas são frequentemente socializadas para
serem as anfitriãs, as organizadoras, aquelas que mantêm a harmonia familiar. Esse papel,
embora tenha evoluído, ainda reverbera intensamente, transformando as festas em um palco
onde, simbolicamente, seu valor como mãe, esposa ou filha é avaliado.
EP: O que é a carga mental e como ela se intensifica em dezembro?
Andreia: Carga mental é o gerenciamento invisível: o trabalho de planejar, lembrar, organizar e antecipar
as necessidades de todos. Em dezembro, ela se multiplica exponencialmente. Não é apenas
sobre "fazer a ceia", mas sobre: quem tem alergia? Qual o presente ideal para cada um? Como
conciliar as agendas? Esse gerenciamento constante, que raramente é reconhecido ou dividido,
é uma das maiores fontes de estresse e esgotamento feminino nesta época.
EP: Podemos dizer que o fim de ano escancara desigualdades na divisão de tarefas dentro
das famílias?
Sim, e de uma forma muito específica. Pesquisas sobre o uso do tempo e divisão do trabalho
não remunerado, como as conduzidas por órgãos como a ONU Mulheres e Oxfam, demonstram
consistentemente que mulheres dedicam mais horas a essas tarefas. O fim de ano não apenas
intensifica essa disparidade, mas também a qualifica: enquanto tarefas visíveis e pontuais
(como assar a carne ou comprar as bebidas) podem ser divididas, o trabalho invisível e contínuode planejamento e gestão emocional da família — a carga mental — ainda é visto como uma
responsabilidade predominantemente feminina, reforçando papéis de gênero tradicionais.
EP: Como lidar com essa autocrítica excessiva e com a pressão pela “perfeição” do Natal?
O primeiro passo é desafiar a ideia do "Natal perfeito", que é uma construção social, não uma
regra. Sugiro questionar: "Perfeito para quem?". O foco pode ser deslocado da perfeição
estética para a conexão real. Praticar a auto compaixão, aceitando que "bom o suficiente" é um objetivo mais saudável e realista, e comunicar ativamente aos outros que este ano a celebração
será mais simples, pode aliviar enormemente essa pressão interna.
EP: Para mulheres que têm relações familiares difíceis, como enfrentar as reuniões de fim
de ano sem se machucar emocionalmente?
Andreia: O segredo é a gestão de expectativas e o estabelecimento de limites claros. Não espere que
a dinâmica familiar mude magicamente. Defina um limite de tempo para sua permanência no
evento. Tenha um "plano de fuga" ou um aliado com quem possa desabafar. Decida previamente não entrar em tópicos sensíveis e, se o assunto surgir, use frases neutras como "Prefiro não falar sobre isso hoje, vamos aproveitar a festa". Proteger sua paz é a prioridade.
EP: O fim de ano pode reabrir feridas emocionais, como lutos, traumas e conflitos antigos?
Como acolher esses sentimentos?
Andreia: Com certeza. As festas são marcadores de tempo e a ausência de pessoas queridas ou a
lembrança de eventos passados se torna mais pungente. Acolher esses sentimentos significa,
primeiro, permitir-se senti-los sem julgamento. Não é preciso forçar um sorriso. Pode ser útil
criar pequenos rituais de homenagem, como acender uma vela, ou simplesmente se dar um
momento de silêncio para reconhecer a dor, em vez de lutar contra ela.
EP: Como identificar quando o desconforto deixa de ser algo natural e passa a ser um
sinal de alerta?
O sinal de alerta surge quando o desconforto se torna persistente e incapacitante. Se a
ansiedade impede o sono, se a tristeza leva ao isolamento completo ou se a irritabilidade afeta
suas relações de forma contínua, mesmo após as festas, é um sinal. A diferença fundamental
está no impacto funcional: quando o mal-estar começa a paralisar sua rotina e a minar sua
qualidade de vida, buscar ajuda profissional é fundamental.
EP: Que atitudes ou limites uma mulher pode estabelecer para viver as festas com menos
ansiedade e pressão?
Andreia: Limites práticos são libertadores. Aprenda a dizer "não" a convites que drenam sua energia.
Delegue tarefas específicas ("Você fica responsável pelas bebidas e pela sobremesa?"). Comunique sua decisão de simplificar a celebração. Estabeleça um orçamento e atenha-se a ele para evitar estresse financeiro. E, o mais importante: reserve tempo na agenda para si mesma, como se fosse um compromisso inadiável.
EP: Você poderia sugerir pequenos rituais de autocuidado que realmente ajudam — não
no sentido superficial, mas emocional?
Andreia: Claro. O autocuidado eficaz é aquele que regula o sistema nervoso e promove
autoconhecimento. Sugiro três práticas com propósitos distintos:
A Ancoragem da Respiração
● Por que ajuda? Focar intencionalmente na respiração ativa o sistema nervoso
parassimpático, nosso "freio" natural. Isso reduz a produção de hormônios do estresse,
como o cortisol, e diminui a frequência cardíaca, comunicando ao cérebro que o perigo
passou. É uma forma de dizer ao seu corpo, fisiologicamente, que ele pode relaxar.
● Quando utilizar?
● Em crise: No auge de uma crise de ansiedade ou quando sentir o coração acelerar. É
uma ferramenta de resgate imediato.
● No dia a dia: Como uma "micropausa" preventiva entre tarefas ou reuniões. Praticar
por 3 minutos ao acordar ou antes de dormir ajuda a regular o sistema nervoso de forma
consistente, tornando-o mais resiliente ao estresse diário.
A Externalização Escrita
● Por que ajuda? Nossos pensamentos, quando ficam apenas na mente, tendem a girar
em círculos (ruminação), parecendo maiores e mais assustadores. Escrevê-los cria um
distanciamento cognitivo: você os observa de fora. Isso permite que o cérebro
processe a informação de forma mais lógica, em vez de reativa, reduzindo a carga
emocional associada.
● Quando utilizar?
● Em crise: Principalmente à noite, quando a mente está cheia de preocupações e "e
se…?" que impedem o sono. Use como uma "descarga mental" para limpar a mente.
● No dia a dia: Como um hábito semanal. Reserve 10 minutos para escrever sobre os
desafios e aprendizados da semana. Isso funciona como uma "higiene mental" que
previne o acúmulo de estresse e promove clareza.
Foco no Apoio Social de Qualidade
● Por que ajuda? A conexão humana genuína libera ocitocina, um neurotransmissor que
promove sentimentos de vínculo e segurança, atuando como um antídoto natural para a
ansiedade. Ser ouvido e validado por alguém de confiança combate o sentimento de
isolamento, um dos maiores amplificadores do sofrimento emocional.
● Quando utilizar?
● Em crise: Quando se sentir completamente sobrecarregada e sozinha. Buscar
ativamente essa pessoa de confiança não é um sinal de fraqueza, mas uma estratégia de
regulação emocional eficaz.
● No dia a dia: Proativamente. Nutrir essas relações com um café, uma ligação ou uma
mensagem, sem esperar a crise chegar. É como investir na sua "poupança emocional",
garantindo que você terá recursos relacionais sólidos quando mais precisar.
EP: Que mensagem você deixa para as mulheres que querem encerrar o ano com mais
gentileza consigo mesmas?
Lembre-se de que você é um ser humano, não um evento. A sua performance nas festas não
define seu valor. Permita-se ser imperfeita. Celebre não apenas as conquistas externas, mas a
força que foi necessária para atravessar os desafios do ano. A maior gentileza que você pode
se oferecer é reconhecer sua jornada, com todas as suas curvas, e se dar o crédito e o
descanso que você merece.
EP: E pessoalmente, qual é a sua reflexão sobre a importância de desacelerar no fim do ano?
Andreia: Para mim, desacelerar não é um luxo, mas uma necessidade estratégica para a saúde mental.
É o momento de calibrar a bússola interna, reavaliar o que realmente importa e recarregar as
energias para o ciclo que se inicia. Sem essa pausa, corremos o risco de viver no piloto
automático, movidos pela urgência e não pelos nossos valores. Desacelerar é o que nos
permite continuar caminhando de forma mais consciente e sustentável.
Referências Bibliográficas
Beck, J. S. (2022). Terapia cognitivo-comportamental: Teoria e prática (3ª ed.). Artmed.
Emma. (2018). A carga mental: E outras histórias sobre o feminismo que ninguém pediu
para você ler. Editora Nemo.
Kabat-Zinn, J. (2013). Full catastrophe living: Using the wisdom of your body and mind to
face stress, pain, and illness (Revised ed.). Bantam Books.
Oxfam International. (2020). Tempo de cuidar: O trabalho de cuidado não remunerado e mal
pago e a crise global da desigualdade. Oxfam Brasil.
Pennebaker, J. W., & Smyth, J. M. (2016). Expressive writing: Words that heal. Idyll Arbor.
UN Women. (2019). Progress of the world's women 2019–2020: Families in a changing
world. UN Women.
Zak, P. J. (2012). The moral molecule: The source of love and prosperity. Dutton.
Sobre a Autora
Com uma carreira de três décadas dedicada à saúde mental, a psicóloga Andreia Pinheiro se
estabeleceu como uma autoridade na psicologia clínica, atuando incansavelmente no
tratamento de pacientes e na capacitação de novos profissionais através de supervisão clínica e
docência em terapias cognitivo-comportamentais. Sua expertise é consolidada por
especializações em Terapia Cognitivo-Comportamental e Neurociência do Comportamento
pela PUCRS, além de formação em transtornos de ansiedade, depressão e manejo da insônia
pelo HCFM-USP. Comprometida em desmistificar a saúde mental, Andreia leva a prática
baseada em evidências para o grande público em seu podcast "Psicologia em Evidência" e
em seu perfil @andreiapinheiro.psi, auxiliando milhares de pessoas com conteúdo acessível
e profundo.Para aprofundar as reflexões desta entrevista, no próximo mês de dezembro, Andreia lança o
capítulo “O abraço que nos devemos” no livro “Saúde e Beleza”, uma obra que reúne a
expertise de diversas mulheres das áreas da saúde, beleza e nutrição. Em seu texto, ela aborda
justamente a carga excessiva e a autocobrança que recaem sobre o universo feminino,
oferecendo caminhos práticos para um autocuidado mais gentil e verdadeiro.
Andreia Lima Oliveira Pinheiro
Psicóloga e Supervisora Clínica
CRP: 06/57.522




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